Design de Fluxo de Conversações #InovadoresESPM – Dia 5 e final

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Design de Fluxo de Conversações #InovadoresESPM – Dia 5 e final

Olá pessoal,

Infelizmente o curso de Design de Fluxos de Conversações do #InovadoresESPM, capitaneado por Luiz Algarra e Gil Giardelli chegou ao seu final.

Para quem não acompanhou os dias anteriores seguem os posts:

– Design de Fluxo de Conversações #InovadoresESPM – Dia 1

– Design de Fluxo de Conversações #InovadoresESPM – Dia 2

– Design de Fluxo de Conversações #InovadoresESPM – Dia 3

– Design de Fluxo de Conversações #InovadoresESPM – Dia 4

A noite começou com uma grande roda onde os alunos realizam um debate na dinâmica conhecida como “aquário”.

No centro da roda de pessoas ficam três ou quatro cadeiras, onde uma sempre fica vaga, a espera de um novo entrante. Ao chegar, um daqueles já sentados deve dar a vez. Somente quem está ao centro da roda pode falar, o que motiva quem está fora a entrar e realizar o rodízio.

A temática para discussão na roda era a pergunta que o Algarra lançou no início da aula: “Como você sai desta semana? O que você levará para a vida saindo do curso hoje?”

Na opinião deste que vos fala, vou repetir o que disse na roda: agregou demais. É como uma porta que se abre, ou melhor, como vestir um óculos quando você é míope.

Antes não via nada muito além da prática do discurso, da conversa – do fluxo de conversações como um todo. Uma semana, uma série de reflexões e casos visitados, posso identificar parâmetros que podem levar além um diálogo que tenha, seja pessoal com outras pessoas, seja administrando uma marca e ou a comunicação do meu negócio com parceiros e/ou colaboradores.

Pontos como contexto, realidade, verdades, porque vivemos o que vivemos, queremos fazer o que fazemos… obviamente com o estudo complementar do ótimo material didático que o Algarra e o Gil disponibilizaram a experiência será ainda mais profunda e fundamentada, mas já são pontos os quais terei o cuidado de identificar e desenhar para o bem comum em minhas próximas conversações e projetos. Lembrando que conversação nunca é imposta, logo não tem como impor uma linha e forçar o ouvinte a ser mero ouvinte. O fluxo de conversação é como várias pessoas jogando frescobol ao mesmo tempo, onde o objetivo é manter o diálogo ativo e atraente a todos os participantes. A bola em jogo é a sua proposta, seja ela de um papo ou uma diretriz, ou a ressonância da sua marca… a comunicação de alguma coisa.

Outros integrantes da turma tiveram impressões parecidas, e já traçaram o paralelo com o que encontram no mundo corporativo – nestas horas o ideal seria não atrelar o curso ao que se vive no dia-a-dia, de forma de tornar o conteúdo mais abrangente, mas isso é quase impossível. Mas vale pela experiência de ver exemplos práticos do que está certo ou errados nas organizações atuais.

Falaremos sobre este tema uma outra hora com mais ênfase neste blog, mas um dos principais problemas das organizações é o despreparo dos líderes para lidar com os novos fluxos de conversações. E aí não estou falando de fazer dinâmicas, reorganizar a intranet… mas sim de redesenho organizacional completo. O modelo hierárquico, oriundo do modelo militar das Grandes Guerras, não funciona mais num contexto mercadológico onde quanto menor e mais ágil melhor. É um modelo que possui uma clara conotação impositiva, de difícil manobra e com fluxo de conversação intrincado, uma vez que quanto maior a estrutura mais as polarizações acontecem – ou você, que trabalha numa empresa multimilionária consegue dar o nome de 20 pessoas e a atividade fora da sua área? As vezes a departamentalização é tão grande que nem dentro da mesma área há um fluxo de conversações consistente, o que ocasiona diferenças de inovação, aprendizagem e comunicação que muitas vezes é atribuído somente a performance de um indivíduo ou grupo.

Mas qual seria o modelo ideal?

Estamos falando de fluxo de conversações, não de Gestão Operacional, mas a tendência é vermos pequenas células multitarefas de alto desempenho – onde o fluxo de conversação é maior e mais aderente às demandas de todos. Elas possuem uma diretriz central, mas pequenos times em cada possuem liberdade operacional e equipe enxuta e completa a disposição, o que otimiza o diálogo entre membros e por conseqüência os resultados.

 

E aqui nasce o conflito: como os gestores, os CEOs e proprietários de empresas atuais, formados durante os duros anos 70 e 80 vão adaptar-se a um modelo onde sua autoridade praticamente inexiste, tornando-se apenas um porta-voz e emissário dos objetivos da organização? É aqui que nascem a falta de “sedução” de grandes empresas que cada vez mais atraem menos os talentos das universidades. Ou veteranos e pessoas espremidas dentro da hierarquia que por ventura optam em sair e traçar trajetória própria.

Este é um dos motivos que eu acredito em pesquisas como a da Dow Jones, que afirmou que boa parte das empresas que formarão seu índice em 2020 não existiam ou não estavam na bolsa 10 anos antes. Mais do que novas tecnologias, é uma nova forma do consumidor viver e conviver com seus próximos que determina novos vencedores. E a conversação é a forma de propagar boas idéias e valores.

Na volta do intervalo a roda foi encerrada e o que vemos foi um momento muito legal, onde no centro da roda ficaram Algarra, Gil e o convidado da noite: Juliano Syper. Conhecido também pela alcunha @Jasper, ele é um dos pioneiros nos estudos de mídias sociais, publicando o primeiro livro 100% nacional sobre o tema, “Conectado” em 2007. Fez outras obras e acabou de voltar de Londres, onde fez um mestrado na University College local sobre antropologia digital. Também fez parte da campanha de Kassab em 2008 e Marina Silva em 2010.

E aqui a primeira polêmica: Segundo Juliano, a conclusão que ele chega é que mídias sociais não possuem o fator decisivo em eleições no Brasil como possuem nos EUA. Pode impactar alguns públicos específicos, é um fórum de livre debate onde cada candidato possui tempo livre para apresentar suas propostas, mas não definirá vencedores por um tempo. Por dois motivos: o Brasil não possui a polaridade política que os EUA possuem, o que facilita a consolidação de equipes e táticas mais elaboradas, bem como a população, de certa forma por conseqüência, não possui o mesmo grau de engajamento que os estadunidenses sobre o tema. Nosso histórico de corrupções e a baixa escolaridade impactam o processo, mais do que a (ainda) baixa capilaridade da internet no país.

O segundo ponto da conversa que mais me chamou a atenção é algo que já chamei a atenção em outro post: Veja aqui.

Ainda vivemos um período de pré-conceito da internet brasileira. O conteúdo é produzido pela classe média-alta… para a classe média alta. A mesma coisa se aplica a marcas e negócios: as criamos para nossos pares. E temos um mercado da classe C e D, ou seja, emergentes, loucos para consumir todo que a internet é capaz de trazer mas falta tudo. Faltam sites que conversem com eles, assim como lojas e até as redes.

Existem dois pontos simbólicos desta discussão. Um foi abordado na discussão entre Juliano, Gil e Algarra. O outro é minha lambuja:

a) A orkutização: Há uma tendência de qualquer ferramenta da internet, quando alcança um grande público, de falar de um processo de “orkutização”. O Orkut foi a mídia social dominante e pioneira no Brasil na década passada e foi muito mal vista pelos primeiros usuários sua capilaridade chegando a todas as classes. E o conteúdo postado por eles por conseqüência. O mesmo hoje fala-se sobre o Facebook, com alguns inclusive espalhando uma notícia de veracidade duvidosa que Mark Zuckenberg estaria chateado com a qualidade do conteúdo que os brasileiros trazem ao site.

b) Instagram – Android: Semanas atrás o Instagram lançou seu app para a plataforma Android, do Google. No Brasil houve quem reclamasse que a qualidade das fotos e do conteúdo fosse despencar – uma vez que com a chegada a uma plataforma que tem maior abrangência de usuários o universo de fotos não ficaria mais restrito à “elite” detentora de iPhones.

Real é que as classes dominantes brasileiras não possuem traquejo para lidar com este público emergente, que está comprando o primeiro carro, viajando de avião, indo ao cinema e freqüentando a faculdade (cabe aqui um parênteses: Educação é o principal fator de prioridade de investimento dos emergentes – captaram uma oportunidade enorme?). E detém um modelo de conversação único dentro da sua rede. Qualquer coisa diferente do fluxo de ao qual está acostumado a aparecer no Leblon, Jardins e Moinhos de Vento (para ficar nos exemplos de RJ, SP e PoA) é de nível inferior pra boa parte da suposta “elite intelectual” nacional.

E aqui abre-se uma oportunidade imensa, absurda de negócios: desenvolver soluções aos emergentes. Que fale a língua deles, ou seja, que respeite e adeque-se ao respectivo fluxo de conversações. A ânsia por consumo deles é imensa, depois de décadas sendo os mais penalizados pela situação econômica nacional deprimente. Com calma, educação (muitos só agora possuem a oportunidade de consolidar sua formação educacional), criatividade e diálogo franco pode-se obter muito sucesso no segmento.

Como conseqüência deste processo, poderemos ver a ascenção de marcas, produtos, serviços e negócios que respeitem, de certa forma, do mesmo modelo de desenvolvimento até hoje visto: de emergentes para emergentes. Uma pena, pois a experiência (fluxos de conversações) entre diferentes camadas da sociedade podem formar uma unidade nacional muito mais forte e consolidada a lutar por interesses comuns. Talvez num segundo momento, numa nova geração que vem aí teremos a construção desta unidade nacional.

Infelizmente o bate-papo, assim como o curso, acabou presencialmente aqui. Mas como o Gil disse de maneira exemplar, na verdade todo fim de curso é uma jornada que se inicia: de novas explorações, de novos limites a explorar, de pessoas a conhecer e comunicar-se… Enfim, um ciclo dentro daquela disciplina começa.

Para mim, fica a certeza de uma meta que coloquei no início do ano: as pessoas ficam muito atrás da próxima palestra, do próximo curso da ferramenta da vez, daquela teoria, do líder capa da revista de negócios… Ok, acho que há a necessidade de atualizar-se freqüentemente, correndo o risco de ser alijado do mercado, seja como profissional, acadêmico ou empresário. Eu mesmo me propus a fazer isso em 2011, com relativo sucesso: afinal depois da formatura em 2007 não havia sentado novamente num banco escolar.

Mas devidamente dissecados estes assuntos, as pessoas continuam a procura de respostas para suas indagações, para achar a solução mágica dos seus problemas.

Acho que as pessoas deveriam focar mais nas ciências básicas: antropologia, sociologia, psicologia, filosofia… alí está o segredo, a gênese da dinâmica social humana. Para o passado, presente e também o futuro. Dedicar-se às artes, como forma de expressão e repertório. Pintar um quadro, tocar um instrumento musical. Pode não ter funcionalidade hoje, mas em algum ponto os pontos entre conhecimentos técnicos e básicos se conectam e fazem a diferença, como dito num discurso famoso.

E usando mais elementos da trajetória do dono do discurso do link acima, para manter-se faminto e curioso em tempos atuais, talvez seja melhor ser menos Stanford e mais Reed College. Esta é a mensagem final minha do curso a todos vocês aqui do blog e do #InovadoresESPM.

Até a próxima!!!